Edição: 11971 Data: 29/03/2017

Editorial - Artigos

Cultura popular na praça do Cristo Redentor (Letterio Santoro)

29/03/2017


Nem uma bibliotecária muito criativa poderia imaginar o que meus olhos viram na tarde daquele domingo, 19.03.2017, na Praça do Cristo Redentor no Jardim Paineiras: a inauguração da terceira geladeiroteca para levar livros aos cidadãos dos bairros daquela região de Garça. Sim, porque, meu caro leitor, duas outras geladeirotecas já antes haviam sido instaladas em outros pontos da cidade: a primeira na Praça da Prefeitura, a segunda no Jardim Oriental à beira do Lago, cheias de livros para deleite de quantos ocupam seus momentos de ócio com boa leitura.


O objetivo das geladeirotecas é levar o livro até o leitor, compreendendo-se por livro aqui não apenas a tradicional composição literária ou científica que constitui volume, mas também as revistas de todo tipo, os gibis, dicionários, etc. a nos esclarecer sobre diversos assuntos. Ao retirar o livro da geladeiroteca o cidadão toca no livro, abre o livro, sente o cheiro do livro; e se anima a ler o título, ou algumas linhas, uma página talvez, talvez uma história. Os lugares das geladeirotecas são escolhidos a dedo: praças com bancos à sombra de árvores, ou um recanto aprazível do Jardim Oriental.


Porque a relação com o livro lembra a descoberta da primeira namorada: tem de ser amor à primeira vista, há que haver sedução e atração mútua. E assim as carcaças inúteis de velhas geladeiras se transformam nas mãos dos membros do Núcleo de Resistência Popular Primeiro de Maio (NRPPM) em pequenas bibliotecas à disposição dos leitores, especialmente crianças, jovens, adultos e idosos, por que não?, a descobrir nos livros sempre amigos disponíveis. Conheci o pessoal do NRPPM pelo primeira vez, executando o seu projeto Cultura na Vila, nas dependências da EE Alcyr da Rosa Lima em junho do ano passado.


Estavam então apenas começando, e ofereciam aos presentes músicas (especialmente do tipo Rap) através de conjunto, demonstrações de grafite no muro do Ginásio de Esportes, cultura circense tão a gosto das crianças, atividades sempre acompanhadas com momentos de reflexão, como no dia a discussão sobre o feminismo no “Stand das Minas”. A apresentação do projeto na EE Alcyr era a terceira do grupo, aproveitando o espaço e a estrutura da Escola da Família. Mas o grupo de repente cresceu com a implementação das geladeirotecas entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro trimestre de 2017.


Como havia eu perdido a inauguração das duas primeiras geladeirotecas (Praça da Prefeitura e Jardim Oriental), propus-me, numa de minhas caminhadas pelo Lago Artificial, visitar a do Jardim Oriental, junto à qual deparei com jovens em papo amigo. E abri a geladeira, e vi um conjunto de livros, folheei alguns, vi que era verdade o que se dizia do projeto, conversei com os jovens que sabiam das coisas, e fiquei contente. Estive lá depois da tentativa, felizmente frustrada, de um secretário municipal de impedir a continuidade da geladeiroteca naquele espaço. Ainda bem que o diálogo superou o impasse e ela continua lá.


Mas não foi só a terceira geladeiroteca que o grupo do NRPPM ofereceu como cultura popular à população dos bairros Jardim Paineiras e Eucaliptos na Praça do Cristo Redentor naquela tarde de 19.03.2017. Havia também pinturas, havia demonstração de grafite, havia violão e cantoria, oficina de malabares, a hora do conto, e pequenas exposições sobre a Constituição Federal, sobre o Projeto CAJU (Caravana Jurídica), sobre cultura como resistência, sobre movimento feminista, sem esquecer da farta distribuição de pipoca e refrigerante para as crianças, os pais e todos os presentes. Tudo de graça. Tudo doação.


Os livros foram chegando. Livros novos e livros usados. Deslumbraram-me edições de os Sermões, do Pe. Antônio Vieira (século XVII), de Os Sertões, de Euclides da Cunha; e até, pasmem, uma edição de tamanho grande do Dicionário Aurélio. Ao lado de outros livros, alguns dos quais doei também. Muita vez o que para nós é excessivo, acaba faltando a outros cidadãos. Os livros não ficarão todos nas geladeirotecas, como fiquei sabendo. O NRPPM estará abrindo uma sede onde coleções de livros estarão à disposição de interessados. Afinal, a cultura é um direito do cidadão, mas nem todos têm acesso.


Foi me dada a excelente oportunidade de ler diante dos presentes reunidos na Praça do Cristo Redentor um poema meu, denominado Meu Mundo, sobre a leitura na infância. Os versos falam de uma cena que me marcou muito: “Preso / na estreita casa de máquinas / da sorveteria de meu pai, / eu andava pelo mundo. / Perto / do vão da janela, os pássaros,/a mangueira, o quintal, o rio,/e ao lado a casa de Dorinha./Longe,/nas páginas do livro abertas,/viajava de trem pelo Brasil/com meninos tão fictícios./Fui/me acostumando a equilibrar,/na dura angústia da vida,/o sonho e a realidade.” Isso foi bom na minha infância.


O encerramento foi a implantação da terceira geladeiroteca sob uma árvore da pracinha, onde apenas um único aparelho de parquinho (chamado quebra-cabeça) brotava da areia para alegria das crianças do bairro. Tantas crianças dos bairros, Prefeito João Carlos, e um único aparelho para elas brincarem! Os presentes foram levando cada qual um ou vários livros para a carcaça de geladeira, agora com nova e gloriosa serventia. O Júlio fez um pronunciamento sobre cultura e mostrou que a música funk, o maracatu também são cultura. Os direitos, disse ele ainda, não chegam à periferia.


E disse mais: “Cultura é resistência. A geladeiroteca é uma manifestação política. Sem gasto. Tudo doação. Há que fomentar a cultura da resistência, estendendo geladeirotecas para todas as praças. Isso é poder popular.” A palavra foi em seguida dada a uma senhora Diretora de entidade ligada à UNE que, entre outras coisas, proferiu: “É preciso colocar-nos como protagonistas dos direitos sociais contra governo (federal) que faz desmonte das conquistas sociais.” Ao final todos se dirigiram para a fotografia oficial do evento, registrando esse momento histórico no Bairro Paineiras. Parabéns aos membros do NRPPM!


Letterio Santoro – 26.03.2017 Membro da APEG (Associação de Poetas e Escritores de Garça)