Edição: 11992 Data: 29/04/2017

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Comarca Motor - Jipe: um elo com a natureza

15/08/2015 -


Quando vemos um veículo quadrado, na sua maioria aberto, alto com suspensão reforçada, pneus grandes e indo em direção a alguma trilha que tenha muito obstáculo, de preferência com lama e voltando todo sujo, logo pensamos e ficamos curiosos: como pode ter pessoas que gostam de um veículo desses? A resposta é fácil: são os chamados de jipeiros, e estão sempre à procura de aventuras e lazer. E é com esse propósito que o Comarca Motor foi atrás desses aficionados por esse tipo de veículo off-road 4x4. E questionamos os garcenses Wilson Bonadio e Pedro Bonadio, pai e filho, sobre esse amor por um veículo sem conforto, mas que pra eles isso pouco importa.



Comarca Motor: Qual o seu nome? Ou nome do grupo?

Wilson Bonadio e Pedro Bonadio, pai e filho. Em Garça não há grupos, andamos com todos que possuem veículos da modalidade e todos são bem vindos; porém em Marília andamos com o Jeep Clube de Marília com Ari Valim, que é integrante fundador desta entidade sem fins lucrativos que surgiu no ano 2000.

Comarca Motor: Qual média de idade de fabricação dos Jipes com os quais vocês andam? Qual motor? Cor? Capacidade do tanque? É sempre a diesel?

Bonadio: Ainda perpetuam nas trilhas Jeeps da marca Willys, fabricados nas décadas de 40 e 50. O nosso Willys CJ5 é um 1957. Utilizamos nele um motor Chevrolet à gasolina derivado do Opala com algumas modificações; a cor é azul, tanque que suporta cerca de 50 litros mais um tanque reserva de 20 litros. Existem jipes a diesel, a álcool e à gasolina. Atualmente jipes mais modernos estão tomando conta do universo off-road: o Troller T4 tem aparecido em grande número, e conta com motores a diesel de alto torque, câmbios robustos, tanques de 72 litros, eixos reforçados e aliado a tudo isso, possui um nível de conforto maior que os antigos Willys.



Comarca Motor: Por que esse amor pelo Jipe? Como surgiu esse amor?

Bonadio: Jipe é sinônimo de liberdade, ele te leva onde você imaginar. As histórias e aventuras que ele nos proporcionou são inúmeras e incontáveis. Ele faz a função de terapia e geralmente dizemos: “O que gasto com jipe, economizo com médico”.

Comarca Motor: Há quanto tempo você(s) tem o Jipe, e hoje algum motivo em especial o levaria a se desfazer dele?

Bonadio: O nosso Willys está na família há cerca de 25 anos e serviu como ferramenta de trabalho até o veículo de trilhas que é hoje. A versatilidade encontrada neste tipo de carro é incrível, um projeto de mais de 60 anos (começou com o Willys MB em 1942) e ainda serve como base para os veículos atuais como o Jeep Wrangler e o Troller T4, que compartilham carroceria, eixos e chassis muito parecidos com os primeiros Willys CJ.

Bonadio: Hoje, o Willys não estaria à venda por valor nenhum. Talvez um dia possa estar, por alguma necessidade. Mas temos a consciência que o valor sentimental é impagável e também o tanto que já foi investido não será retornado num valor de venda.



Comarca Motor: Ele é um veiculo de “aventura”; você(s) usa(m) o Jipe no dia a dia?

Bonadio: Como dito antes, são veículos versáteis, mas por conta de algumas características como entre-eixo curto e altura, isso os torna um pouco complicados para o uso do dia-a-dia. Mas para quem ama, isso é apenas um detalhe. Aventura é o sobrenome do jipe, entre os jipeiros; jipe bom é jipe de trilha, para andar no asfalto tem melhores opções. Mas atualmente, com os modelos mais atuais, se faz possível sim ter um carro único para trilha e para o dia-a-dia. No nosso caso, o Troller é utilizado sim no dia-a-dia e expedições (Serra da Bocaina, Serra da Canastra, litoral, o que para nós um carro normal não atenderia. O Jeep mais antigo é de uso restrito a trilhas e não tem frescuras.



Comarca Motor: Você faz parte de algum grupo? Qual o nome do grupo, quando surgiu? Por quê?

Bonadio: Não fazemos parte de nenhum grupo. Na região existem alguns grupos de expressão, como o Jeep Clube de Marília que organiza um evento anual que reúne mais de 120 jipes por ano, e nós entramos na organização. Para nós, o importante é ir para o meio do mato e estar entre amigos, tendo este interesse em comum, todos se divertem e se transformam em grandes amigos. Uns vão pela adrenalina de vencer obstáculos, outros só pelo fato de entrar em contato com a natureza. Alguns levam seus filhos pequenos para conhecer uma vida mais simples e bonita, se comparada com as nossas cidades atuais. Funciona para todo mundo como uma válvula de escape que nos proporciona paz, emoção, tranquilidade e amizade.



Comarca Motor: No dia 4 de abril é comemorado o Dia do Jipeiro. Vocês comemoram de que forma? Fazem alguma ação beneficente neste dia?

Bonadio: Geralmente no dia 4 de abril acontece o evento de Marília, quando geralmente são arrecadados alimentos e passamos o dia na trilha com amigos de várias cidades. Em dias como Natal, Dia das Crianças, há também a doação de brinquedos nas fazendas e vilarejos onde realizamos nossas trilhas.

Como o Jeep Clube é de Marília, e nessa data é aniversário da cidade, então estamos sempre com nossos jipes no desfile de aniversário da cidade pela avenida. As crianças adoram, os mais velhos lembram os tempos passados. No mês de abril, junto às comemorações de aniversário da cidade, realizamos já há 16 anos o tradicional Encontro Off Road de Marília, que recebe mais de 100 jipes vindos de diversas cidades da região e outros estados. Como estamos envolvidos com a organização do evento, deixamos para dezembro, no Natal, a ação beneficente do grupo. Há mais de 10 anos levamos brinquedos e doces às crianças de um distrito de Marília. É um momento emocionante e um grande aprendizado às nossas crianças que sempre participam ativamente desta ação social. Fazemos eventualmente também a campanha do agasalho com roupas recolhidas entre os próprios integrantes.



Comarca Motor: A fábrica do JEEP está no Brasil faz pouco tempo e lançou alguns modelos dos Jeeps novos. Vocês acham que esses veículos novos são off-road de verdade?

Bonadio: Existem ainda jipes com o verdadeiro DNA off-road, por exemplo a Jeep produz o Wrangler que é um jipe que seria a evolução dos antigos CJ5, com um powertrain muito forte, suspensão de grande curso, eixos rígidos, chassi tubular, carroceria resistente, entre-eixo curto que o faz superar obstáculos assim como os jipes mais antigos. Existem muitos SUVs com apelo off-road, como por exemplo o novo Renegade que tem uma capacidade off-road mas incomparável com o que um jipe de nascença é capaz de fazer.



Comarca Motor: Ser jipeiro é?

Bonadio: Ser apaixonado por um esporte que cresce no mundo todo e por um veículo que mudou o rumo da 2ª Guerra Mundial e um dos poucos que permanece atuante mesmo com 60, 50, 40 anos de fabricação. Ter contato e respeitar a natureza, estar junto com a família, dose de adrenalina, sensação de liberdade, fazer o bem ao próximo e estar sempre rodeado de verdadeiras amizades e estar sempre com a vontade do fim de semana chegar para colocar nossos brinquedos na terra. Quem tem um jipe nunca anda sozinho, nunca está sozinho.



História de jipeiro

Trilha em Oriente/Avencas-SP


Há alguns anos conhecemos uma estrada municipal abandonada em Oriente, que quando chovia nos divertia com subidas de pedra com lama vermelha bem lisa, mas que não apresentava altas dificuldades... Após um longo período de chuva, um amigo resolveu ir fazê-la sozinho, mas ao chegar lá viu que estava muito ruim, e nos comunicou. No final de semana seguinte nos organizamos em 3 jipes (nosso Willys, uma Toyota e uma Ford F75) com diversos equipamentos (guinchos, facão, enxada, cordas) e a caçamba da F75 cheia de troncos de árvores para tamparmos os buracos maiores. Ao chegar ao primeiro obstáculo, a chuva havia rompido a estrada e a frente do jeep caberia inteira no buraco cheio de lama e neste primeiro buraco colocamos todos o troncos que havíamos trazido e ainda não foi suficiente pois eles afundavam na lama, passamos os 3 veículos com a ajuda dos guinchos. O próximo obstáculo contou com erosões e após certo trabalho, conseguimos vencer. Chegamos à subida principal onde achamos que haveria o pior problema e realmente houve. Uma cratera se abriu no meio da subida que formou uma espécie de cachoeira de cerca de 1,5m de altura, impossível para qualquer tipo de veículo ultrapassar, e a tarde já ia virando noite quando começamos a trabalhar nestes obstáculos.

Após diversas enxadadas conseguimos transformar esse buraco numa subida de cerca de 70º de inclinação, os jipes ainda não conseguiam vencer por conta da areia fofa e os guinchos nos tiraram da situação; ainda nessa subida havia degraus de cerca de 70 centímetros, e eu com o jipe estava na frente e ao tentar vencer um degrau desse, meu sistema de direção quebrou. Depois das tentativas de arrumar não funcionarem, saímos dali e a Toyota passou a nos rebocar como em um trem por meio de um acessório chamado cambão ou towbar, sendo que eu a empurrava em situações mais complicadas. Quando achamos que os problemas estariam acabados, por conhecer o fim da trilha, eis que a menos de 1 quilômetro da porteira da estrada havia uma erosão de cerca de 5 metros de comprimento por 2 de profundidade que caberiam dois jipes dentro. 22 horas de um sábado, garoa, um veículo quebrado e um buraco imenso na frente: O que fazer? Resolvemos quebrar o barranco lateral e abrimos uma estrada de cerca de 2m de largura ao lado do buraco e passar com os jipes escorregando para a erosão com o auxílio do guincho. A Toyota foi primeiro, mas por ser a mais pesada e larga escorregou para o buraco e quase tombou. Amarramos o guincho a uma arvore e com todos segurando a lateral dela, conseguimos sair do sufoco. Meu jipe veio em seguida, e sem direção encostamos a lateral dele no barranco e a outra roda era guiada pelo pessoal que estava de fora, por ser o mais leve e estreito, passamos sem dificuldade. E por último a mais longa e também larga F75 que caiu com a traseira inteira para dentro do buraco e após uma operação resgate, conseguimos tirar ela de dentro do enrosco. A chegada em Garça foi em torno de 3h da manhã, muito cansados e precisando de um banho urgente!

 


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